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domingo, 14 de setembro de 2014


R$ 513 bilhões. É quanto os bancos lucraram nos doze anos de administração petista. Acusação de Marina Silva? Não, dados do próprio Banco Central. O levantamento é do Valor Data, usando ranking das 50 maiores instituições financeiras, divulgado pelo BC.
Dilma Rousseff vem atacando Marina por sua ligação com Neca Setubal, amiga, conselheira, coordenadora do programa de governo do PSB. Dilma foi pra cima no programa eleitoral gratuito: "A Neca educadora é educadora, mas agora está se comportando como banqueira. À medida que sou herdeira do banco Itaú e defendo a política que defendo claramente os bancos... estou fazendo o papel de banqueira."
Resposta veio voando. Os dois grandes jornais de São Paulo publicaram entrevistas com Neca, "como você se sente com essas acusações da campanha do medo" etc. Não é jornalismo, é propaganda.
A participação de Neca Setubal no Itaú vale uns R$ 800 milhões. Com os outros herdeiros, ela faz parte do bloco controlador do banco. Seu dinheiro pessoal está investido através do private banking do Itaú. Ela é mais que banqueira, ela é dona de banco. Se não quer ser tratada como tal, fácil. Basta vender suas ações.
Este fato incontestável não torna moral o ataque de Dilma. Que não mente, mas omite a verdade. Questionar Marina por proximidade com os bancos? O Itaú e outros bancos ganharam mais de meio bilhão de reais nos 12 anos do PT.
O próprio Lula confirmou há anos: "nunca os bancos ganharam tanto dinheiro como no meu governo". A tendência continuou no governo Dilma, embora a rentabilidade dos bancos tenha caído por um período (porque Dilma forçou a queda dos juros em bancos estatais, e por causa da inadimplência), antes de voltar a crescer.
Por comparação, quer saber quanto os bancos lucraram nos dois mandatos de Fernando Henrique? R$ 31 bilhões. O tucano, quem diria, foi menos amigo dos bancos que os petistas.
Dilma pode falar o quanto quiser que enfrenta os bancos. Os números falam mais alto. E tem um que grita e ensurdece. É quanto o seu governo pagou de juros.
Entre 2009 e 2013, o Brasil pagou R$ 1,19 trilhão em juros da dívida. Isso mesmo: mais de um trilhão de reais. Ano após ano, vem aumentando. Em 2013, recorde histórico: R$ 249 bilhões. Quanto é isso? Para efeito de comparação, o governo de Dilma investiu em 2013 no Bolsa-Família R$ 25 bilhões, e dez vezes mais no Bolsa-Banqueiro...
Em linguagem de gente: o Brasil anos atrás trocou sua dívida externa por uma dívida interna. Que é muito mais cara, porque aqui os juros são muito mais altos que internacionalmente. As contas do Brasil não fecham. Estamos pagando cada vez mais juros para quem nos empresta.
E quem nos empresta a grana? Quem compra títulos públicos. Não é o zé povinho. É quem tem boa grana para investir, e grandes empresas, e, claro, os grandes bancos. Nossas instituições financeiras lucram pesado emprestando ao governo, sem risco nenhum. E por isso fazem questão de influir na hora que escolhemos presidentes e congressistas.
Segundo a prestação parcial de contas dos candidatos, até agora Dilma arrecadou R$ R$ 123,6 milhões, Aécio R$ 46,5 milhões, e Marina R$ 23 milhões. O Estadão publicou uma grande análise detalhando de onde vêm as doações. Vêm, naturalmente, das maiores empresas do Brasil, as que mais têm relações de negócios com o governo. Vale ler areportagem do Daniel Bramatti.
Se os títulos públicos pagassem juros mais baixos, seria menos lucro para nossa elite rentista e para os bancos. Se o Brasil diminui ou zera sua dívida amanhã, acaba a mamata. Se pagássemos 20% a menos de juros por ano, dava para o país bancar mais dois programas com o custo do Bolsa Família. Imagine o impacto social disso. Ou fazer a famosa revolução na educação, que todo mundo prega, e nunca se materializa.
marina Dilma não pode atacar Marina pela ligação com Neca Setúbal. Nunca neste país houve maior amigo dos bancos que o PT
É pouco provável um enfrentamento com os bancos, ganhe a presidência quem ganhar. "Qual é o seu plano para diminuir rapidamente quanto o Brasil paga de juros, candidata?". Essa é a pergunta que não entra em debate nenhum. Se entrar, a resposta é desconversa na certa.
Um detalhe importantíssimo sobre porque as contas do Brasil não fecham. Não é por causa do Bolsa Família e outros programas sociais. Juntando todos eles, ainda é pouco dinheiro. A razão mais escandalosa é a transferência de recursos públicos a grandes empresários.
Desde 2009, no início de mandato de Dilma, o Tesouro Nacional emprestou R$ 305 bilhões ao BNDES. Cobra a taxa Selic, 11%. O BNDES empresta às empresas cobrando a TJLP, 5%. A diferença é enorme, e detona nossas contas.
Que empresas botaram a mão nessa grana? Quase todas as grandes que você já ouviu falar. Algumas foram com mais sede ao pote. As informações são públicas. Se o leitor fizer muita questão, semana que vem publico aqui uma seleção das que meteram mais a mão no nosso bolso. Por enquanto basta citar só uma pessoa, que simboliza bem tudo isso: foram R$ 10 bilhões do BNDES para Eike Batista. Dinheiro que representa uns 40% do custo anual do Bolsa Família. E que não volta nunca mais para o Tesouro, porque o coitado quebrou, né?
É evidente que tivemos ganhos sociais nos governos petistas. Aliás, também tivemos no governo tucano. Só cego pode negar, como só o pior tipo de cego nega os muitos erros de FHC, Lula, Dilma. Mas o avanço está muito distante do que precisamos, que é garantir pelo menos o básico para todos os brasileiros.
É difícil o Brasil ir para frente na velocidade que precisa, pagando R$ 250 bilhões de juros ao ano. Aumentando sem parar nossa dívida. E transferindo bilhões sem fim para grandes empresários amigos do poder. Esta é a questão política central do Brasil.
Não duvido que os três candidatos tenham bons projetos em seus programas para isso e aquilo. Papel aceita tudo. O que importa de verdade no capitalismo é dinheiro, de onde vem, para onde vai. Aécio escolheu para futuro ministro da Fazenda Armínio Fraga. Explicitou sua posição subalterna ao mundo financeiro. Marina e seus conselheiros, como Eduardo Gianetti, vêm dando declarações no mesmo sentido, "independência" do Banco Central, tarifaço, alta de juros. A ligação com Neca torna muito transparente para que lado pende sua candidatura.
Mas Dilma, por seu histórico, não pode atacar Marina pela ligação com o Itaú. Nunca na história deste país houve maior amigo dos bancos que o PT. Na hora de investir nossos recursos públicos, os três candidatos privilegiam os poderosos, e principalmente o poder financeiro. E por isso é impossível votar pela mudança em 2014.
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